França

O comboio atrasado para Marselha ou a história de como (quase) não visitei a cidade

janeiro 06, 2017,0 Comments

Drawing Dreaming - roteiro Provença - visitar Marselha - Vieux Port
Por muito que viajar seja um dos maiores prazeres que tenho na vida, nem sempre acaba por ser tão perfeito quando inicialmente imaginamos. Lembro-me de uma vez ter lido uma frase do autor americano Paul Theroux que dizia que "viajar só é glamouroso em restrospectiva" e, embora não concorde a 100% com esta opinião, a verdade é que ao emigrar sozinha já tive a minha quota parte de momentos menos bons em viagem. Ainda que não tenha propriamente histórias macabras de viagens que acabaram mal como alguns viajantes, já me aconteceu dar por mim em viagem a pensar como é possível ter tão pouca sorte.


Drawing Dreaming - roteiro Provença - visitar Marselha - Vieux Port
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destino: provença
De todas as peripécias que já vivi, sem dúvida, que Marselha leva o prémio para a viagem mais atribulada. Vamos por partes: este Verão eu e a minha irmã decidimos fazer uma viagem juntas e, um pouco como fizemos quando fomos a Barcelona, encontrarmo-nos a meio caminho. Depois de vários destinos em debate, acabámos por nos decidir por uma roadtrip pela Provença.
Depois de ter andado a descobrir sozinha o Norte da França, confesso que estava pronta para novos ares e rumar ao Sul pareceu-me uma óptima ideia. Depois de algum planeamento, lá consegui encontrar rotas cujos horários coincidissem e que permitiriam que chegássemos aproximadamente à mesma hora a Marselha, apesar de a minha irmã ir apanhar um avião e eu um comboio. Em restrospectiva, talvez seja mesmo o planeamento que me deixou tão frustrada nesta primeira ida ao Sul. Quem me conhece sabe que adoro planear viagens e, apesar de não ir ao extremo de decidir que tenho que estar em tal local a tal hora, gosto de organizar uma lista de museus e monumentos que quero visitar, possíveis locais onde comer... enfim, gosto de ter uma ideia do que fazer nos destinos que visito. Como iríamos chegar a Marselha pela manhã, sabia que nos sobrava bastante tempo para explorar a cidade no resto do nosso primeiro dia na Provença. Ou pelo menos assim pensava, porque esta é a história de como quase não visitei Marselha...

Drawing Dreaming - roteiro Provença - visitar Marselha - Vieux Port
Drawing Dreaming - roteiro Provença - visitar Marselha - Vieux Port

uma viagem de comboio (muito) atribulada
Para viajar até Marselha decidi testar um serviço que até então me era novo: o Ouigo, uma versão low cost do TGV em França. Apesar de nunca ter viajado neste comboio, a verdade é que muitas tinham sido as vezes que tinham embarcado nos autocarros da Ouibus e como ambos os serviços são geridos pela SNCF pensei que a diferença só seria mesmo o meio de transporte. Como vários amigos me tinham falado da experiência positiva que tinham tido com este serviço e visto que eu tinha uma estação bem perto (na Disney), decidi reservar o meu bilhete para uma viagem de pouco mais de 3h até ao Sul.
Suponho que deveria ter percebido logo ao chegar à estação de comboios que esta viagem estava destinada a correr mal: passo nesta estação todos os dias e penso que nunca a tinha visto tão cheia. Para terem uma ideia, o embarque para o OUIGO é feito no nível superior, mas em vez de encontrar uma fila fluída dei por mim no fundo das escadas rolantes à espera que as pessoas avançassem para poder subir e depois de muitas perguntas, percebi que todos aqueles passageiros iam embarcar no mesmo comboio que eu. Não sou de desanimar ao primeiro obstáculo e na altura o meu pensamento positivo foi mesmo o de como dava jeito o facto de eu chegar sempre antes ao que quer que fosse. Após algum tempo, a fila começou a avançar e cheguei ao piso superior, apenas para dar por mim parada numa espécie de túnel completamente comprimida contra outros passageiros e a pensar que afinal até compreendia os claustrofóbicos. Depois de (mais) alguma espera, cheguei finalmente ao local onde os funcionários da empresa verificavam os bilhetes e recebi a informação de que saíriamos atrasados pois o comboio para Marselha estava cheio e haviam muitos passageiros ainda por embarcar. Ok, talvez não tivesse sido uma tão boa ideia rumar a Marselha na altura do Euro, mas esta era a altura em que tinha férias (e afinal, Paris até que não estava assim tão confuso), por isso quando finalmente embarquei a bordo do comboio e ouvi a mensagem vocal de que teríamos um atraso de meia hora, mantive a calma e pensei que nem era assim tão mau.
Finalmente partimos e a viagem parecia estar a correr bem até chegarmos aos arredores de Dijon e o comboio parar do nada, sem qualquer aviso. Lembro de termos ficado algum tempo à espera, os passageiros a se entreolharem até nos informarem que tinha havido um acidente na linha em direcção a Marselha. Depois de uma longa espera, o comboio começou a avançar, mas bastaram cerca de vinte minutos para pararmos de novo. Nova espera até recebermos um aviso de que um TGV à nossa frente se encontrava bloqueado por ter passado demasiado devagar na linha e de que excepcionalmente iriam abrir as portas para quem quisesse sair. Vou poupar-vos aos detalhes exaustivos desta parte da minha viagem para num resumo mos contar que: a) estávamos num apeadeiro no meio do nada e os funcionários não tinham qualquer informação de quando iriamos sair dali; b) só havia uma via disponível, logo tinham que desviar os comboios um a um em ambos os sentidos; c) estava um calor dos diabos e o meu almoço acabou por ser um pacote de bolachas que (felizmente) me tinha lembrado de trazer na mala; d) ficámos mais de duas horas neste fim do mundo até nos anunciarem que deveríamos entrar nas carruagens para partir e (aleluia) decidirem distribuir águas pelos passageiros. Neste momento, até eu já começava a perder a paciência e não conseguia deixar de pensar em como ainda nem me encontrava a meio do trajecto. Como não há duas sem três, ao finalmente chegarmos à primeira paragem prevista na estação de Lyon, novo aviso de que teríamos que ficar retidos porque existiam passageiros descontentes que estavam a provocar desacatados e a polícia tinha sido chamada. Pensamento geral na minha carruagem: grand vitesse uma ova. Quando finalmente voltámos a partir, penso que já ninguém queria acreditar que iríamos finalmente chegar a Marselha. Entre pessoas que tinham perdido ligações e cruzeiros que os iriam levar ao seu verdadeiro destino de férias, a frustração era geral e quando por fim chegámos a Marselha, uma viagem que estava prevista para pouco mais de três horas tinha durado muito mais do que o dobro. 

Drawing Dreaming - roteiro Provença - visitar Marselha - Panier
Drawing Dreaming - roteiro Provença - visitar Marselha - Vieux Port

finalmente, marselha
Tinha saído de Paris de manhã e só cheguei a Marselha já de tarde, esfomeada, apenas para desembarcar numa estação que se revelava o caos completo com comboios atrasados e anulados e, para, de telemóvel na mão, seguir empurrada pela multidão a tentar descobrir onde estava a minha irmã no meio daquele cenário apocalíptico.
Quando finalmente a encontrei, já todos os nossos planos de visita tinham ido por água abaixo e só nos restava ir até ao hotel deixar as malas para depois regressar apressadamente e tentar levantar o carro que tinhamos alugado dentro do prazo estabelecido
De chaves na mão, partimos de novo até ao hotel, desta vez de carro com a minha irmã atrás do volante. Abro aqui um parêntesis para tentar explicar a aventura que é conduzir nas ruas de Marselha. A imagem que me tinham pintado de Marselha antes da viagem não era boa (crime, drogas, imigrantes) e, apesar de não ser tão má quanto se poderia imaginar, há que confessar que certas zonas de Marselha são, no mínimo, peculiares.  Há sem dúvida zonas pobres, com ruas sujas e edifícios degradados, cheios de graffiti e a cairem aos pedaços, mas o pior é mesmo a sensação de insegurança que se tem em algumas áreas. De todas as cidades que já visitei, nenhuma (nem Paris que também tem alguns bairros estranhos onde a vontade de passar é pouca) me provocou uma ideia de insegurança tão forte quanto Marselha. Para terem uma ideia, enquanto conduzíamos pela cidade chegámos a ver uma pessoa a ser atropelada enquanto outras empurravam um carro violentamente. Enfim. No final deste dia, a minha frustração já tinha atingido o limite e, com a maior parte das atracções de Marselha já fechadas, a única coisa que me apetecia mesmo era ficar deitada na cama do hotel, mas uma vozinha lá no fundo lembrou-me que me deveria levantar e, no tempo que nos restava, tentar explorar a cidade.

Drawing Dreaming - roteiro Provença - visitar Marselha - Panier
Drawing Dreaming - roteiro Provença - visitar Marselha - Vieux Port

VISITAR A CIDADE
Suponho que tenha que agradecer pelas horas de luz extra no Verão porque, apesar de não ter conseguido visitar nenhum monumento nesse dia, aproveitámos para deambular pelo centro da cidade. 
Marselha é uma cidade moderna, mas se tal como eu querem absorver o lado mais autêntico provençal, então têm mesmo que visitar o bairro do Panier, um dos mais antigos da cidade! Com as suas ruas estreitas e casas coloridas, este é uma das áreas mais amigáveis de Marselha, com um ar típico mediterrâneo que se revela nas pequenas praças onde locais jogam petanque ou nas esplanadas onde se bebe um copo de pastis atrás do outro.

Drawing Dreaming - roteiro Provença - visitar Marselha - Panier
Drawing Dreaming - roteiro Provença - visitar Marselha - Panier
Drawing Dreaming - roteiro Provença - visitar Marselha - Panier
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Daqui seguimos até à zona do Vieux-Port (uma das mais bonitas de Marselha) para jantar. Parámos no Bistrot l'Horloge, onde optámos por umas boas saladas provençais, sem no final resistir a partilhar um delicioso pain perdu. A praça onde fica o restaurante estava cheia de pessoas que vinham beber um copo e assistir aos jogos do Euro (incluindo nessa mesma noite um Portugal-Croácia que o nosso país acabou por ganhar).

Drawing Dreaming - roteiro Provença - visitar Marselha - Bistrot l'Horloge
Drawing Dreaming - roteiro Provença - visitar Marselha - Bistrot l'Horloge
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Ao final da noite aproveitámos para passear pela lindíssima zona do Vieux-Port, um porto que se destaca pelos seus monumentos históricos, pelo farol e antigas oficinas e que, apesar de ser maioritariamente para turistas, é um dos pontos de encontro e símbolos da cidade. Nessa noite vimos foguetes a serem lançados e ainda espreitámos um baile local de pescadores (que ao tocar uma das minhas músicas preferidas nos fez dançar). Depois de um dia muito longo, pude finalmente colocar para trás das costas toda a frustração com que tinha chegado a Marselha e começar a sonhar com a nossa viagem de carro pela Provença! Ao ver as luzes da cidade reflectidas na água soube finalmente que a magia estava mesmo no ar...

Drawing Dreaming - roteiro Provença - visitar Marselha - Vieux Port
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digam-me, alguma vez tiveram problemas com transportes que encurtassem o vosso tempo numa cidade?

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